Pesquise no blog

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Bailarina

   E ela dançava serena, sozinha. Em seu palco inundado por sapatilhas. Ela dançava singela, emotiva, carente. Com sua roupa branca como algodão, um titi brilhante e uma sapatilha de gesso já desgastado. E deslizava pra lá... pra cá. Sem plateia, sem soldado.
   Era algo a mais que uma dança. Era o modo que ela havia encontrado para expressar seus sonhos. E sonhava. E expressava. Sem plateia, sem soldado. Sem soldado!
   Em cada deslizar que dava ia afastando do centro de seu palco as sapatilhas diversas. E como a pobre bailarina caía. Doía o tombo no coração, mas doía dor de amor. Depois de alguns segundos de choro, ela sempre levantava. Sabia que a música não parava. Retomava sua dança nas pontas já doloridas e calejadas. E dançava. Dançava num impulso forte de fazer até grand jete sem muito esforço. Dançava numa leveza que parecia sair do chão. Dançava bruta, dançava triste.
   Ouvia seu coração pulsar no toque da música. Nesse momento o que ecoava no auditório era a doce melodia do Lago dos Cisnes. Mas não era esse seu repertório preferido. Ela se encantava no Soldado de Chumbo. Mas não tinha nenhum pra ela. Nem plateia tinha, quanto mais soldado. Mas dançava como se tivesse, bem ao seu lado. Ao fechar os olhos podia vê-lo ao seu lado. Num padedê de dar gosto.
   E dançava de olhos fechados. Se os abrissem ele não estaria mais lá. Dançava de olhos fechados. Saltava, caía, chorava, levantava, pulava... sonhava. Sentia saudade da época em que realmente dançava com seu solado. A verdade é que essa época nunca existira e ela jamais dançara com seu soldado. Mas sonhava. E dos sonhos batia a saudade.
   Mas chega o dia em que ela abre os olhos e percebe  alguém em sua plateia. Havia ali um caro homem. Vistoso, galante. Sim, era sim o Soldado que ela tanto sonhou, tanto esperou. Ele andava em direção ao palco. Subia as escadas na maior paciência que a bailarina já vira. Ele segurou uma de suas mãos e deixou escapar algumas palavras:
   _ Eis aqui o teu soldado. Prometo ser teu forte, tua base, o gesso que sustenta tamanha formosura. Eis aqui o teu amado, aquele que sonhava com o dia deste encontro. Posso dizer-te uma coisa: sou mesmo um soldado de chumbo, mas carrego aqui dentro dessa armadura um coração mole. Coração esse que é só teu, ó, estrela de meus musicais. Arrisco viajar a qualquer palco do muno, desde que eu esteja acompanhado de tua doce presença. Ao teu lado, vou à Brodway ou ao Bolshoi no tempo de um Pa de Chat. Eis aqui o teu amado.
   E sem reação ela o admirava. Uma lágrima quase despercebida saiu rolando em sua face pintada de branco. E compreendendo a ausência de palavras da jovem, ele se levantou, fez com que dançassem a música - que no momento era do repertório de Esmeralda - e finalizados num panchè ele a presenteia com um beijo.
   Agora a pobre bailarina tem seu soldado de chumbo, não precisa mais fechar os olhos para sentir sua presença. Ela apenas dança e dança.

Menina

   Era quase um sonho. Ela vivia meio perdida, não sabia voltar aos caminhos que já tinha passado. Não percebia que tinha que traçar seus próprios caminhos, que andar pelos caminhos traçados a levaria somente onde os outros chegaram, como diria o poeta.
   Se preocupava demais com o tempo, queria o que queria rápido demais. Deixava a pressa acabar com a emoção do momento. Tinha medo. Medo de não dar certo. Medo de dar certo. Talvez nem fosse medo, talvez fosse só uma insegurança. Reação do frio na barriga que sentia só de pensar no nome dele.
   Ela já tinha crescido, não via mais graça em suas bonecas, havia trocado seus livros ilustrados de contos de fadas pelos livros da escola e pelos romances de seus autores preferidos. Já não acreditava mais que o amor da sua vida a buscaria em seu cavalo branco, acreditava que o amor da sua vida era ele, com seus defeitos e qualidades, com o dom que ele possuía de alegrar o seu dia e de acabar com o seu humor em um instante. Acreditava nele, confiava nele.
   Ela queria um presente, ele queria dar o presente. Mas parecia cedo demais para receber o presente. Nunca dava certo. Dava quase certo. Ela só queria um beijo. Estabelecia metas, prazos. Mas nunca dava certo. Só dava quase certo.
   Parecia incomodada com a demora. E se sentia nervosa quando estava prestes a acontecer alguma coisa. Deve ser sintomas do amor. Ah, esse tal de amor. Deixava a vida dela de cabeça para baixo. E ela amava isso. Ela odiava isso. Ela mal sabia o que era isso. Mas vivia disso. Vivia sorrindo. Vivia chorando. Mas vivia disso.
   Ela havia se tornado uma menina muito emotiva. Chorava muito, chorava por qualquer coisa. Culpa dele. Chorava por ele. Tinha medo dele. Medo de perde-lo. Ela havia se esquecido como se vivia sem ele, sem falar no nome dele. Sem contar histórias dele. Ela vivia dele.
   Ela ainda era só uma menina, mas já vivia do amor. Do amor dele.
   Ela vivia.
   Ela vivia por ele.
   Ela vivia por causa do amor dele.


Desejos de uma adolescente apaixonada

   Você não quer muita coisa. Você quer coisas simples, pequenas, mas que fazem a diferença. Você quer coisas que talvez ele nem saiba que são tão importantes para você.
   Você dispensa qualquer loucura de amor, qualquer coisa grande demais. Você quer coisas tão pequenas que podem até passar despercebidas, mas que pra você é algo imenso.
   Você quer acordar de manhã com uma mensagem de bom dia no seu celular, quer que ele te abrace e segure a sua mão. Quer que ele te mande mensagens de madrugada dizendo que estava sonhando com você. Quer que ele te ligue a tarde pra dizer que estava pensando em você.
   Você quer que ele fique mexendo em seu cabelo. Que ele ria de você quando você ficar vermelha. Que ele te dê um beijo na testa, te abrace bem forte e cochiche em seu ouvido que você é o mundo dele.
   Você ama a timidez dele. E ele ama a sua. Talvez não saiba demonstrar, mas você sabe que ele ama. E você não desiste de insistir nas coisas simples, você não desiste. Ainda há fé de que vai dar certo, de que coisas simples se tornarão grandes.





Uma conversa com o amor

   Olá, amor. Precisamos conversar seriamente. Ultimamente você não anda me fazendo muito bem. Responda-me, sinceramente, amor: que mal eu fiz a você? A não ser que me falhe a memória, não me lembro de faltar com a gentileza, muito menos reclamar de você.
   Porém, ultimamente, amor, quando falo em você me encontro em prantos e não mais em suspiros. Convenhamos, você não foi criado para desiludir seus crédulos. Pelo contrário, é mais que sua obrigação fazer com todos queiram amar.
   Acho que essa história de amor não é mesmo para os fracos. E ser forte nunca foi o meu forte. Sim, sou fraca, confesso. E já penso em desistir de você, amor. Não vejo mais prazer em viver largada pelos cantos, em crises e choros, pensando em tudo que não aconteceu e em tudo que poderia ter acontecido.
   Não suporto mais sua gracinhas, amor. Com o coração não se brinca. E por falar em coração, o meu está fechado para qualquer ser que tente romper esse elo que fiz comigo mesma. Elo este que não permite que eu me apaixone novamente. Não quero que esse capítulo triste se repita no livro da minha vida. Você, amor, não fez muita coisa além de romper a fé que eu tinha em você.